O desafio de criar filhos fluentes em português

(Orange County,CA) – Hoje estamos publicando o artigo escrito por Monique C.F. Mendes, mestre em literatura portuguesa e africana. Nós convidamos a Monique para colaborar com o conteúdo editorial do CCBSC e ela nos enviou  um artigo dirigido aos pais que sonham em ver seus filhos fluentes em inglês e em português, mas vivem a dificuldade de alfabetização-los nas duas línguas.  Já passou por isso? Então, acompanhe o post. ________________________________________________________________

LER E ESCREVER: UMA QUESTÃO CULTURAL  

por Monique C. F. Mendes*

O processo de alfabetização é sempre um importante desafio para pais e filhos, afinal, a partir daí, todo o contato da criança com a realidade circundante passa a ser mediado por uma série de outras relações e instrumentos de conhecimento só acessíveis na experiência da leitura e da escrita.

Tal tarefa, por si só já cercada de expectativas, torna-se ainda mais perturbadora quando se trata da alfabetização bilíngue, condição necessária, como veremos aqui em particular, às crianças, filhas de pais brasileiros, nascidas no exterior.

Segundo o professor Ademar da Silva, doutor em Linguística, que atuou como Leitor de português no Departamento de Estudos Brasileiros e Portugueses do King’s College da Universidade de Londres, o ensino do português é de extrema importância, uma vez que essa língua de herança está inserida em algum canto da memória da criança, do jovem. Ela, a língua, precisa simplesmente ser reativada. Para tanto, nada melhor que uma instituição de ensino. Muitas crianças e jovens bilíngues chegam a ter uma competência linguístico-comunicativa razoável em português, ou seja, falam a língua, mas não escrevem nessa língua, e essa deficiência só pode ser sanada através da escola, do ensino.

Ainda de acordo com o professor: “Em lares bilíngues ou monolíngues, por mais que se fale o português em casa, a criança vai optar pelo inglês. Isso acontece porque a criança tende a falar a língua da comunidade, a língua dos seus pares na escola, da televisão”. Assim, à medida que cresce e naturalmente se insere cada vez mais na vida comunitária exterior ao ambiente doméstico em que, circunstancialmente apenas, escuta e é solicitada a falar em português, a criança passa a desinteressar-se pelo idioma. É neste momento que se torna primordial o processo da alfabetização, visto que no ambiente cultural e social da escola ela será constantemente estimulada a formalizar seus pensamentos e vivenciar suas experiências intersubjetivas na língua materna dos pais ou de um dos pais.

Mas como realizar, na prática, essa dupla alfabetização?

Bem, é observável alguns aspectos que aqui listamos brevemente:

 

  • Todo o processo de alfabetizar uma criança em uma segunda Língua exige um trabalho firme (persistente), necessário para que a criança possa entender e se mostrar interessada no aprendizado;
  • A criança interage com pequenas narrativas, isto significa que ela gosta de ter domínio afetivo sobre elas, então vale ouvir ou assistir várias vezes CDs e DVDs com estas historinhas na língua portuguesa;
  • Ela precisa ser estimulada a se expressar em português também por outras pessoas, além dos pais, como tios (as), primos (as), professores, assistentes nas creches, enfim, pessoas que estima, pois, assim ocorre o aprendizado por empatia e desejo de aceitação pelo grupo.
  • Não se preocupe se, no início, a criança se mostrar titubeante e misturar as duas línguas ao falar, por exemplo. Com o tempo essas coisas se ajustam, como tantas outras confusões ocorridas no processo de alfabetização monolíngue.
  • Crianças aprendem por imitação. Logo se os pais se mostram interessados em ler e escrever em português, os filhos(as) também se mostrarão, para isso vale também organizar brincadeiras que envolvam o contato com o idioma.

 

Por fim, converse com seus filhos(as) sobre a importância de saber português, pois esta habilidade os permitirá ter acesso ao Brasil e sua cultura, algo que já faz naturalmente parte de seu patrimônio genético e afetivo. Terão, enfim, um passaporte subjetivo a um “outro mundo”, sem a necessidade de mediadores. Isto os fará sentir orgulho e prazer em cumprir mais esta importante etapa da vida.

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Sobre a autora

Monique C. F. Mendes é Mestre em Literaturas: portuguesa e africana, pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Chefia as publicações, sendo a responsável pela produção editorial dos Anais, Revista Brasileira, Coleções Acadêmicas ( Afrânio Peixoto, Austregésilo de Athayde e Antonio de Moraes Silva) e as coedições da Academia Brasileira de Letras.

À frente desse setor dividiu com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, o 57º Prêmio Jabuti por projeto gráfico com o livro Ex-Libris, organizado pelo embaixador Alberto da Costa e Silva.

É também avó da Sophia, criança bilíngue.



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